domingo, 1 de outubro de 2017

a aldeia tem uma doença grave
de quem ignora ou comemora
no meio da sala um cadáver
mas acusam de  bandido quem chora
pelo brado de um covarde com um revólver
que retumba chumbo na carne suave
de um país velho sem História

como se desorientássemos uma nave
é louco quem na nau dos loucos mora
e talvez a boa metade que se salve
chore mares por sua louca vitória
mares que tantos fantasmas devolvem
corpos e pensamentos instáveis
...todos tão mortos de memórias

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

cortina de fumaça sobre o sol que escapa
pelas horas, pelos dias, no fim da rua
nas esquinas da cidade turva
em qualquer direção ela é seu próprio mapa

o sol não seria igual sem sua fuligem
ou Florianópolis sem essa carapaça
a cara dos que passam já se esbrua
exatamente na velocidade em que surgem
nesse mundo em preto-e-branco
não aparecem roupas coloridas
olhos verdes, castanhos
nem profundas perspectivas
meu espírito eu espanco
já sem nenhuma confiança
que se ilumine franco
e me tire pra uma dança

homens são pretos ou brancos
mulheres têm som de tamancos
e crianças por enquanto... 
são crianças
o carvão é preto e o gelo, branco
e cor-de-cinza, a esperança

é preciso aguentar o tranco
o país cai no barranco
o futuro é opaco e tanto

a vida em preto-e-branco
eu sentado nesse banco
ela mesma passa...
                                     em branco

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Basta tirar o que está sobrando da pedra
é o simples trabalho de lhe aparar as arestas
são sentenças que encerram questão mais profunda
que a discussão da falta ou excesso de modéstia

Tu podes querer dizer o que é bom e o que não presta
Mas vais deixar as pistas de quem és a quem enxerga
Juízo, bom juízo, enganos ou mentiras
desdigo o que foi dito ¿Que verdade seja dita?
Mas ao cara que talha com as mãos honestas
às vezes se revelam os segredos da matéria

Moisés, de Michelângelo
De nada adianta temer o tempo
a vida tem vida própria
a gente se esquiva da roda
que a gente põe em movimento

indiferente a qualquer desejo
como a alegria que nos tem abandonado
ou melancolia desfeita com desprezo
incontrolável como o próprio acaso

mas é preciso que lutemos
contra aquilo que uns chamam de deus
também contra nós mesmos
contra o tempo, por esta vida que não se deu

Há no tempo uma espécie de ciclo
O coração se rendendo
ao desapego contínuo

Não se conta em número
ou em felicidade
Então creio que tudo
respeita a validade
dessa coisa que muda
Impenetrável, surda
do que é feito o mundo

Não é o relógio que o move
mas registra sua passagem
através de uma estrita lógica
Por mais que a gente olhe
é tão difícil que se saiba
se essa máquina misteriosa
poderá ser vista à sua hora

enquanto a busca nos entretém
sem grande anseio de ninguém
por uma Compreensão sem palavras

Não se culpa o relógio
quando vem a boa sorte,
por ser a via da vida,
mas pela chegada da morte

Então pra quê temer o tempo?
se é quase o mesmo que a vida
de alguma forma como o vento
ele, às vezes, também vira

De nada adianta temer o tempo
a vida tem vida própria
a gente se esquiva da roda
que a gente põe em movimento

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

façam tambores do meu couro
chocalhos dos meus dentes
e dos meus ossos façam flautas

se minha vida é o tesouro,
não vai durar eternamente
nada vai me fazer falta

tirem da carcaça o ritmo
e belas melodias
e a música que foi Isto
alegrará vossos dias

tirem do coração o ritmo
da carcaça, um cajón
e de silêncios que já foram gritos
façam as pausas da canção
como deuses

O mundo é dos instintos
e a razão seu simples instrumento
talvez o melhor, a maior das diretrizes
Ferramenta das emoções, das paixões puras
e de suas formas obtusas
ao contrário do que tu dizes

o frio inexaurível dos con$umidos
o sombrio amor das bruxas
o ego excêntrico dos exibidos

emoção fria
ancestral
mitologia

a culpa humana de sonegar
o peso análogo de a sí negar
ou no peito a cama desfeita

a paixão egoísta dos narcisos
o hábito passional de qualquer vício
E O QUE HÁ DE MAIOR NO MUNDO

Não me digam que o mundo está perdido
por não agirmos por instinto!
No intuito de vivermos como deuses
é que racionalizamos os seus usos
e deliberamos a falta de controle
nossa paixão de gelo

No instinto de virarmos burgueses
é que contabilizamos os seus juros
ávidos por sempre mais! bicho homem!
nossa estranha fome
  
No infinito de algumas vezes
em garrafas que esvaziamos juntos
acreditamos
em felicidades pelos instintos
mas só por eles nós já vivemos
e nós não vemos